Faz frio. Se fosse há meses atrás pediria a ti que me esquentasse. Se fosse há anos atrás pediria para que não me esquecesse. Eu te esqueço, você ressurge como um fantasma entre os vapores de chá quente.
Eu não deveria gastar minha caneta contigo e deixar meus dedos manchados de tinta azul para escrever teu nome. O ar que respiro não deveria lembrar-te, os perfumes de todas as outras, eu tanto procurei, nunca são como o teu. Mas eu não deveria, não, não deveria gastar meu papel amassado pra dizer o que nunca te disse.
Lábios finos e pálidos, escondendo o sorriso que me congelou no tempo por tantas vezes. Cabelo escuro contrastando com a pele branca. Branca de Neve. Os olhos, gostaria de me lembrar melhor, de um verde tão vivo, com uma coragem enfurecida que me assustava. Assusta. O braço longo e magro, tão teu. A pinta minúscula na palma da mão. As unhas sempre com a mesma cor de esmalte, claro e delicado. Não me lembro o nome. Era da Colorama, não era? Chamava-se Leite de Coco, devo ter lido em algum rótulo.
Tão correta. Perfeita (não pra mim). Perco-me na contagem de “ela” que rondavam meus pensamentos apenas referidos a ti. Seu hálito era fresco. Trident de menta, se lembra? Ou era hortelã? Eu não me lembro mais e nem deveria. Pudesse eu apagar a tua imagem… Mas eu não abriria mão!
Você e seus cálculos, seus resultados certos, sua voz os exibindo. Sua mão se erguendo para responder qualquer pergunta, mas e as minhas? Assaltaram seu banco de respostas, eu digo que entendo sem sequer entender porque isso respondo.
O certo seria te considerar uma vadia. Uma vadia que não rasgava sua saia para todo mundo ver, os rasgos expostos que fazia em mim já bastavam. A puta que não desfilava de salto fino pela Augusta, calçar as sapatilhas no Municipal sempre foi mais divertido. A prostituta que tem hímen. A alma que eu deveria considerar um bueiro escuro, cheirando a esgoto, mas que lavei infinitas vezes com lágrimas em algum banheiro.
Pensamentos esparramados em meus delírios. Minha obsessão, meu não controlável e nunca contido. O declínio me levando para baixo de um poço, não há ninguém para me jogar a corda, enquanto passo tanto frio. Você se lembra de quando disse que moraríamos na cidade mais fria do Canadá, juntas? Oh, não! Desculpe-me moça, não se lembra de nada. Meu nome de tua memória foi varrido, não precisa ser gentil e sorrir como se soubesse do que estou falando, sobre como (nada bem) estou.
Eu deveria estar escutando alguma música enjoativa de tão romântica, que fosse tão melosa a ponto de me dar náuseas sobre meus próprios sentimentos. Obviamente não a música que tanto me lembra de ti, mas ocupando-me com qualquer coisa que me impedisse de abrir o maldito caderno e abrir a minha cabeça para as malditas lembranças.
Mas em que inferno meu anjo se meteu para me salvar? O anjo agora é só você… Deixe-me cortar suas asas para que não mais saia voando da minha mente.
