Ignoro o relógio e o que ele me mostra: o tempo que passa, mas cada segundo sendo vivido como o anterior. Finjo que ele está quebrado, defeito de fábrica. Três horas, quase isso, duas e cinquenta e sete.
Tateio e encontro o copo na mesa ao lado da cama, quase sem forças pego-o e… Meu rosto se inunda de água, deixo que o líquido que antes estava no copo entre em minhas narinas. Como se isso fosse me afogar. Como se eu já não tivesse me afogado há muito tempo na dor depois de tentar nadar contra o rio frio de decepções. Meu nariz começa a arder insistentemente, minha boca procura, fracassada, por ar, enquanto tremo por baixo do pijama molhado.
Levanto depressa, meus raciocínios extintos. Olho um pouco para a escuridão do quarto, os olhos se revezando entre a pouca luz que vinha do banheiro e a janela fechada onde ventos batiam. Três passos dei para frente, três passos dei para trás: volto para a cama e me sento, cabeça baixa, cabelos cobrindo toda a face amargurada. Meu corpo antes tinha uma alma, porém esta desapareceu, fugiu, fugiu tão rápido que mal notei. Não me responsabilizava por mais nada que pudesse fazer.
Encostei pesadamente meus pés no chão, dei um impulso com o braço fraco (tão quanto meu próprio coração) e coloquei-me de pé. Voltas no quarto. Barulhos, na verdade estrondos, no vazio. Paro repentinamente entre a televisão e a cama, começo a roer as unhas, cada milímetro encontrado se tornando distração, pouco me importando com a base amarga que cobria meu único refúgio. Vinte minutos, trinta, quarenta se passaram. Olhei bem para as minhas mãos. Feias. Esquecera-me da última vez que alguém as tinha pego.
Fui até o banheiro, algumas pisadas breves me levaram até lá. Fechei a porta pesada de madeira. Fiquei calada no escuro enquanto a lâmpada fluorescente não se acendia por completo. Ela começou a piscar a cada segundo. Tirei as minhas roupas. Olhei para as paredes brancas, contraste com meu coração pintado de preto. Tentando não fazer nenhum ruído, peguei um recipiente vazio de shampoo para abrir o chuveiro, não queria tomar choque.
A água estava tão quente, choque térmico entre sua fervura e minha frieza contida em cada gesto. O vapor me permitiu escrever no box uma única palavra, mas que tudo resumia: morte. Morte por dentro, sem sentimentos, sem alma, um corpo andando pelo mundo, um corpo vazio. O físico nunca me importara em demasia, então, se os outros tão sem vida estavam, seria contra meus pensamentos manter apenas uma massa fazendo mais peso no mundo. Acabar com tudo era o caminho.
As gotas aquecidas de água me queimavam as costas enquanto eu assobiava Karma Police e planejava mil e umas formas de tornar-me assassina do corpo que continuava vivo na ponta extrema do abismo. Desliguei o chuveiro, o abafamento do banheiro estava insuportável. Me enrolei na primeira toalha que vi e me sentei ali mesmo, no piso úmido e gelado. Só olhava fixamente para a pia a minha frente. Nenhum motivo especial. Não pensava em nada, assim era melhor. De um instante para o outro minhas atenções foram desviadas para a porta. Não queria passar por ela e sair dali, não por mim mesma, não com meu corpo ainda vivo.
Nada de cortante por perto. Talvez alguma gilete dos homens da casa, mas isso não bastaria. Eu queria ver o sangue sendo derramado, ver se ele ainda existia e corria dentro de mim, apenas seu vermelho poderia se destacar no branco e preto. Procurei em todas as gavetas: nada. Enquanto isso, o calor do banheiro diminuía rapidamente, o frio tomando o seu lugar, deixando a ponta de meus dedos roxa. Batendo com os dentes por causa da baixa temperatura, senti-me obrigada a sair daquele banheiro. Ficar para sempre ali seria melhor, infinitamente melhor. Entretanto, não me contive e, depois de ter me levantado do chão, abri devagar a porta (não queria acordar ninguém).
Meu quarto. Silêncio. Intacto. Minha respiração era inaudível, talvez pelo fato de que eu mal estivesse respirando, praticando meu hobby preferido: ficar o maior tempo possível sem ar, sem respirar o mesmo ar que me trazia más lembranças. Um treino para a morte.
Por qualquer roupa e andar de bicicleta pela madrugada. Era tudo que eu queria. E tudo que não podia. Ver o breu da noite naquele instante seria ótimo, mas abrir a janela faria muito barulho. Bosta. Vasculhei a gaveta do guarda roupa em que estavam minhas roupas de dormir, não tinha nada. Todas lavando. “Durmo sem”, dito em voz alta isso, me apressei em pegar um edredom para me cobrir, tarefa bem sucedida.
Quase recomecei a andar pelo quarto, o sono me dominava, meu cérebro não funcionava e a meia volta que dei não pode me despertar. Dormir seria melhor, o sabor de morte em cada sonho. Assim que me aproximei da cama me lembrei que o colchão estava molhado por causa da água que derrubara uma hora atrás. Dormiria no lado contrário.
Deitei. Parei. Pensei. Chorei. Fechei meus olhos na esperança doce e ingênua de que nunca mais os abriria.
