Fools On Parade

O rapaz de vinte e poucos anos pôs-se a sentar no primeiro banco que viu na praça. Olhou, protegendo as córneas com os óculos escuros sessentistas, para o sol radiante que aquecia seu corpo branco. Nenhuma nuvem no céu típico da região. Notou a fonte histórica, já bem corroída pelo tempo, a sua frente… Meninos de rua brincavam na água enquanto pobres homens mais velhos berravam para assustar os pombos que andavam no chão sujo.

Descontentamento e impaciência eram os únicos sentimentos visíveis no rosto magro e sardento do moço. Vestia-se casualmente bem, camisa azul claro comprada num brechó nobre, bermuda de tecidos elegantes assinada por algum estilista renomado, e o  sapato Oxford não deixava escapar seu gosto por tudo que é clássico. Na cabeça, por cima do cabelo castanho curto cortado por ele mesmo, ia um chapéu branco com uma pequena faixa negra. O suor escorria por seu buço, fazendo-o lambê-lo num gesto nada polido.

Na imersão de seus pensamentos infortúnios não percebeu que um jovem senhor havia parado para descansar no mesmo banco que ele permanecia. O primeiro murmurava a letra de um antigo rock britânico quando foi surpreendido pela pergunta do segundo:

–  Ei amigo! Quer um cigarro?

O mais novo olhou lentamente para o lado, ainda com as ideias distantes da praça paulista em que se encontrava. Pigarreou algo ininteligível para si próprio e depois de pensar um pouco, respondeu com um seco “não”.

Cinquenta e uns anos deveria ter o homens de barba grisalha e foi perto desse número de vezes que insistiu para que o moço aceitasse seu Lucky Strike.

–  Desculpe, prefiro morrer com três tiros na garganta em poucos segundos a fumar e ter de esperar longas décadas de sofrimento para foder com meus pulmões de uma vez e morrer de câncer. – explicou em tom áspero o jovem.

Dobrando a barra da calça, o homem mais velho riu-se roucamente para depois gritar no ouvido daquele que estava a seu lado:

 Há, você não me engana! Olhe só o quê carrega em uma das mãos. – e apontou para a garrafa de whisky que era carregada pelas mãos brancas e grandes do rapaz.

O dono da bebida mostrou os dentes pela primeira vez naquela manhã, não se sabe como num sorriso irônico ou súbito raivoso. “Por que diabos veio este velho me encher à custa da pouca paciência que me resta? Logo hoje que esta encontra-se esgotada”. Abaixou a cabeça e virou-a para os lados, feito isso, levantou-se e já estava alisando a roupa para ir embora e finalmente livrar-se do velho robusto sentado no banco de madeira.

Mal deu dois pequeninos passos e ouviu um “volte aqui, prometo parar de amolar-te com minhas chatices!” atrás de si. Ignorou o quê escutara e continuou seu caminho rumo a fonte central que jorrava água para todos os cantos: sentou-se perto dali.

Sua face fechada sugeria os piores pensamentos – lábios comprimidos com bravura, nariz inflado do que poderia ser ódio e o cenho completamente franzido. Tomou um gole da bebida barata que comprara na noite passada em um barzinho sujo da próxima esquina. Noite fria. Por dentro e por fora.

Tirou do bolso uma carteira e desta arrancou violentamente a foto de uma mulher, pouco bonita ela, e a fitou com um olhar de horror misturado com tristeza nunca antes visto.

Despiu-se dos óculos para secar com os dedos longos e tortos a lágrima que brotava de seus olhos inchados. Sua boca, embora ainda cerrada, tremia para que seus soluços não fossem perceptíveis para outras pessoas, mas logo desistiu de reprimi-los. Seu silêncio deu lugar ao som da fraqueza de uma alma doente. Desesperado, amassou a foto em seu punho bruscamente fechado.

“Pessoas são tão inúteis, pena tenho de mim por ser dessa raça tão medíocre” conversou consigo mesmo para depois tomar todo o líquido forte que restava na garrafa pesada de vidro. Levou a manga da camisa até os lábios para que estes fossem secos. Seu coração estava incrivelmente mais amargo do que sua boca molhada pelo whisky vagal.

Observou por um único instante tudo a sua volta: uma família feliz tomando o sol das oito, crianças, “esses pivetes barulhentos”, brincando e idosos rindo a toa enquanto jogavam barulho. Em comum entre todos eles… O espaço, nada de vazio em suas mentes e no sangue que corria em suas veias, espaço. “Coisa que nunca terei no vácuo negro que sempre fora essa desgraçada vida”.

Tornou a observar a foto 3x4 amassada na palma de sua mão: mulher séria, branca, fundo esverdeado e obscuro. Água. Água descendo dos minúsculos olhos do garoto quase homem, seu arrependimento molhando seu bonito e delicado rosto tomado pela frieza. Jogou a foto entre os vãos do banco da praça. Sua cabeça girava. Suas ideias giravam. O mundo girava e ele permanecia o mesmo.

Colocou os óculos, encaixou-os bem ao nariz fino e arrebitado. Memorizou cada nuvem do céu pela última vez de todas e levantou-se com uma pressa angustiante. Com uma mão largou a garrafa de álcool no chão e com a outra apalpou o quê tinha por debaixo da camisa: um revólver e mais três balas.

Saiu caminhando rumo ao nada.

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