Fools On Parade
Um cobertor e duas xícaras de café

Alguém, por favor, alguém pode me dizer quanto falta para a hora de despertar? Algum generoso pode me informar quando tocará meu despertador? Só pretendo calcular o quanto ainda posso aproveitar desse sonho, do qual ficaria eternamente de olhos fechados, vendo a imagem dela… Dê-me, alguma boa alma, sossego para deste lugar nunca sair.

Talvez eu esteja num filme, apenas desejando que seu diretor nunca dê a cena final. E porque não estaria eu num livro empoeirado, esquecido numa biblioteca qualquer? Aguardo para que o leitor me veja em suas páginas, mas que jamais passe os olhos pelo “FIM!” escrito em tinta negra da última folha.

Eu a quero tanto do meu lado, nos meus braços, colada aos meus lábios, os olhos claros fitando os meus… Minha cabeça já não pensa e meus pés já não andam, não tocam o chão, flutuam. Perguntam-me o que vejo de tão belo, o que há de tão bonito em minha ótica, para eu estar sorrindo distraidamente.

Só quero encontrá-la, dar vergonhosamente minha mão para ela, por mais que essa possa estar tremendo de nervosismo, e não soltar nunca mais. Quero sentir a temperatura de seu corpo branco e seu hálito quente em meu rosto.

Seu perfume… Preciso saber qual é, para querer o sentir a cada vez que respiro. Sua voz me é paradoxalmente tão próxima e tão distante, mas isso não basta: preciso ouvi-la perto do meu ouvido, ela dizendo tudo o que quero escutar.

Um dia, espero que não muito longe, eu serei dela e vice-versa. Quero meu nome gravado em seu coração, assim como o dela está no meu. Posso ser o Malboro que a acalma, os calmantes que a fazem dormir, a cura para sua doença.

Ela diz gostar de mim e eu acredito, se faço certo enquanto a isso não o sei. Diz querer estar perto de mim, mas seria impossível ela desejar isso mais do que eu desejo estar perto dela. Derreto-me feito uma geleira exposta aos mais fortes raios de sol, meu riso é cada vez mais incontido, meu coração (antes tão frio e só), descongelou.

Estou deitada na minha cama, com um copo d’água no criado mudo ao lado, sonho acordada dentro do sonho: ela me levaria pra andar de ônibus e eu dormiria tranquilamente em seu ombro durante todo o trajeto, ela mal se mexendo para que eu não acordasse. Em alguma tarde de outono, deitaria, sorrindo, no meu colo enquanto eu passaria carinhosamente meus dedos entre seus cabelos loiros. Em alguma madrugada afora dançaríamos nossas músicas tão juntas que quase não haveria ar para respirar, depois apenas nos deitaríamos no sofá da sala e conversaríamos sobre coisas bobas até o sono chegar. Ela me deixaria chorar de saudades ao ouvir a música do Wolfmother que leva seu nome.

Me faz lembrar de dias chuvosos, o frio batendo na porta: do lado de dentro um cobertor e duas xícaras de café. Me faz lembrar também, embora muito tristemente, que talvez ela só habite meu imaginário, uma imagem criada por ventos.

 Mas afinal, que horas da madrugada são?

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