Fools On Parade
Pânico sonolento

Acordo mas ainda estou presa ao sonho da minha realidade. Abro os olhos com medo do que verei, isso se o verei; imagens turvas e fora de ordem, móveis conhecidos, porém, todos embaralhados na minha visão.

Faço uma tentativa fracassada de movimentar meu corpo deitado no sofá da sala mais afastada da casa, esse parece pesar 150 quilos e não sai do lugar. Dou-me conta do que está acontecendo… Meu pavor da tarde chegara e junto com ele a falta de ar e sentimento de pré-potência diante da situação.

Vivendo um pesadelo que poderia me tomar a vida, a sequência de vários outros cochilos vespertinos: morte! Pensamentos abandonavam bruscamente meu cérebro, assim como a lógica que ele já tivera algum dia. Pálpebras se fechando involuntariamente, lábios cerrados por uma força além de mim, mãos estranhamente estáticas.  O cabo de conexão com o mundo estava sendo cortado lenta e dolorosamente pelas mãos do desespero que me consumia a cada infernal segundo sem que o ar chegasse a meus pulmões.

Pânico, porque tomares pose de mim? Dor, para que me assombrar de tal forma? Suava frio por baixo da mata azul marinho que me cobria, onde o velho e confortável sofá desbotado me serviria de leito de morte. O vento daquele tedioso e aflito domingo a tarde entrava na sala pela porta encostada. A porta. Precisava fugir por ela, mas como? Fazia um esforço sobrenatural apenas para chegar a essa conclusão, quiçá poderia eu reunir forças para dar cinco passos a minha direita e conseguir alguma ajuda, por mais banal que fosse, para não morrer durante aquele pesadelo.

Meus pés formigavam, sentia minhas veias dos braços saltadas e com o sangue passando vagarosamente nelas. Relatos de um defunto.

“Preciso montar uma estratégia para me mexer, uma câmera Polaroid, um morcego!” comecei a devanear e a pouca noção que me restava foi-se embora frente a essas alucinações. Um clipe do Oasis, retrato de uma mulher loira, um banjo, garrafa de Jack Daniels – efeitos de alguma droga moderna que eu não tinha injetado em meu corpo.

Ouvia desta vez sem loucuras, alguma música vinda do clube mais próximo, onde acontecia festa de Carnaval. A letra do pagode dizia “… forças pra continuar” e isso bastou para que eu recuperasse minha sanidade e começasse a ter pensamentos lúcidos e com nexo, por menor que fossem.

“Meus olhos, preciso abri-los” pensei fazendo uma força capaz de levantar um bêbado robusto do chão para que eu conseguisse descolar minhas pálpebras. Lampejo de felicidade. A luz invadindo tudo. Meus olhos abertos. Todo o esforço valera.

Minha alegria a esse feito foi tão forte que esqueci de preocupar-me em sustentar a firmeza para que meus olhos não voltassem a se cerrar. Escuridão. Adeus claridade, adeus visão.

Se estivesse em estado de socar algo, o faria imediatamente por raiva. Agora minha respiração estava ofegante e eu tentava desesperadamente me jogar do sofá, “quem sabe alguém ouve o estrondo e vem me socorrer?”. Fracasso. Tentei outra vez e tantas outras que seriam impossíveis de contar nos dedos das mãos e dos pés.

Até que com a mesma bravura que um raio corta o céu, tudo voltou com uma imensa e barulhenta luz: sai do lugar e estava sentada de forma torta sob o braço rasgado do sofá.  Minha pulsação voltara freneticamente, assim como o sangue correndo nas veias. A dor foi-se embora e levou consigo o formigamento e mal estar.

Puis-me de pé com velocidade e tropeçando no cobertor, custava a acreditar nos fatos anteriores. Minutos de desespero que se alojaram nos meus pensamentos confusos.