Faz frio. Se fosse há meses atrás pediria a ti que me esquentasse. Se fosse há anos atrás pediria para que não me esquecesse. Eu te esqueço, você ressurge como um fantasma entre os vapores de chá quente.
Eu não deveria gastar minha caneta contigo e deixar meus dedos manchados de tinta azul para escrever teu nome. O ar que respiro não deveria lembrar-te, os perfumes de todas as outras, eu tanto procurei, nunca são como o teu. Mas eu não deveria, não, não deveria gastar meu papel amassado pra dizer o que nunca te disse.
Lábios finos e pálidos, escondendo o sorriso que me congelou no tempo por tantas vezes. Cabelo escuro contrastando com a pele branca. Branca de Neve. Os olhos, gostaria de me lembrar melhor, de um verde tão vivo, com uma coragem enfurecida que me assustava. Assusta. O braço longo e magro, tão teu. A pinta minúscula na palma da mão. As unhas sempre com a mesma cor de esmalte, claro e delicado. Não me lembro o nome. Era da Colorama, não era? Chamava-se Leite de Coco, devo ter lido em algum rótulo.
Tão correta. Perfeita (não pra mim). Perco-me na contagem de “ela” que rondavam meus pensamentos apenas referidos a ti. Seu hálito era fresco. Trident de menta, se lembra? Ou era hortelã? Eu não me lembro mais e nem deveria. Pudesse eu apagar a tua imagem… Mas eu não abriria mão!
Você e seus cálculos, seus resultados certos, sua voz os exibindo. Sua mão se erguendo para responder qualquer pergunta, mas e as minhas? Assaltaram seu banco de respostas, eu digo que entendo sem sequer entender porque isso respondo.
O certo seria te considerar uma vadia. Uma vadia que não rasgava sua saia para todo mundo ver, os rasgos expostos que fazia em mim já bastavam. A puta que não desfilava de salto fino pela Augusta, calçar as sapatilhas no Municipal sempre foi mais divertido. A prostituta que tem hímen. A alma que eu deveria considerar um bueiro escuro, cheirando a esgoto, mas que lavei infinitas vezes com lágrimas em algum banheiro.
Pensamentos esparramados em meus delírios. Minha obsessão, meu não controlável e nunca contido. O declínio me levando para baixo de um poço, não há ninguém para me jogar a corda, enquanto passo tanto frio. Você se lembra de quando disse que moraríamos na cidade mais fria do Canadá, juntas? Oh, não! Desculpe-me moça, não se lembra de nada. Meu nome de tua memória foi varrido, não precisa ser gentil e sorrir como se soubesse do que estou falando, sobre como (nada bem) estou.
Eu deveria estar escutando alguma música enjoativa de tão romântica, que fosse tão melosa a ponto de me dar náuseas sobre meus próprios sentimentos. Obviamente não a música que tanto me lembra de ti, mas ocupando-me com qualquer coisa que me impedisse de abrir o maldito caderno e abrir a minha cabeça para as malditas lembranças.
Mas em que inferno meu anjo se meteu para me salvar? O anjo agora é só você… Deixe-me cortar suas asas para que não mais saia voando da minha mente.
Ignoro o relógio e o que ele me mostra: o tempo que passa, mas cada segundo sendo vivido como o anterior. Finjo que ele está quebrado, defeito de fábrica. Três horas, quase isso, duas e cinquenta e sete.
Tateio e encontro o copo na mesa ao lado da cama, quase sem forças pego-o e… Meu rosto se inunda de água, deixo que o líquido que antes estava no copo entre em minhas narinas. Como se isso fosse me afogar. Como se eu já não tivesse me afogado há muito tempo na dor depois de tentar nadar contra o rio frio de decepções. Meu nariz começa a arder insistentemente, minha boca procura, fracassada, por ar, enquanto tremo por baixo do pijama molhado.
Levanto depressa, meus raciocínios extintos. Olho um pouco para a escuridão do quarto, os olhos se revezando entre a pouca luz que vinha do banheiro e a janela fechada onde ventos batiam. Três passos dei para frente, três passos dei para trás: volto para a cama e me sento, cabeça baixa, cabelos cobrindo toda a face amargurada. Meu corpo antes tinha uma alma, porém esta desapareceu, fugiu, fugiu tão rápido que mal notei. Não me responsabilizava por mais nada que pudesse fazer.
Encostei pesadamente meus pés no chão, dei um impulso com o braço fraco (tão quanto meu próprio coração) e coloquei-me de pé. Voltas no quarto. Barulhos, na verdade estrondos, no vazio. Paro repentinamente entre a televisão e a cama, começo a roer as unhas, cada milímetro encontrado se tornando distração, pouco me importando com a base amarga que cobria meu único refúgio. Vinte minutos, trinta, quarenta se passaram. Olhei bem para as minhas mãos. Feias. Esquecera-me da última vez que alguém as tinha pego.
Fui até o banheiro, algumas pisadas breves me levaram até lá. Fechei a porta pesada de madeira. Fiquei calada no escuro enquanto a lâmpada fluorescente não se acendia por completo. Ela começou a piscar a cada segundo. Tirei as minhas roupas. Olhei para as paredes brancas, contraste com meu coração pintado de preto. Tentando não fazer nenhum ruído, peguei um recipiente vazio de shampoo para abrir o chuveiro, não queria tomar choque.
A água estava tão quente, choque térmico entre sua fervura e minha frieza contida em cada gesto. O vapor me permitiu escrever no box uma única palavra, mas que tudo resumia: morte. Morte por dentro, sem sentimentos, sem alma, um corpo andando pelo mundo, um corpo vazio. O físico nunca me importara em demasia, então, se os outros tão sem vida estavam, seria contra meus pensamentos manter apenas uma massa fazendo mais peso no mundo. Acabar com tudo era o caminho.
As gotas aquecidas de água me queimavam as costas enquanto eu assobiava Karma Police e planejava mil e umas formas de tornar-me assassina do corpo que continuava vivo na ponta extrema do abismo. Desliguei o chuveiro, o abafamento do banheiro estava insuportável. Me enrolei na primeira toalha que vi e me sentei ali mesmo, no piso úmido e gelado. Só olhava fixamente para a pia a minha frente. Nenhum motivo especial. Não pensava em nada, assim era melhor. De um instante para o outro minhas atenções foram desviadas para a porta. Não queria passar por ela e sair dali, não por mim mesma, não com meu corpo ainda vivo.
Nada de cortante por perto. Talvez alguma gilete dos homens da casa, mas isso não bastaria. Eu queria ver o sangue sendo derramado, ver se ele ainda existia e corria dentro de mim, apenas seu vermelho poderia se destacar no branco e preto. Procurei em todas as gavetas: nada. Enquanto isso, o calor do banheiro diminuía rapidamente, o frio tomando o seu lugar, deixando a ponta de meus dedos roxa. Batendo com os dentes por causa da baixa temperatura, senti-me obrigada a sair daquele banheiro. Ficar para sempre ali seria melhor, infinitamente melhor. Entretanto, não me contive e, depois de ter me levantado do chão, abri devagar a porta (não queria acordar ninguém).
Meu quarto. Silêncio. Intacto. Minha respiração era inaudível, talvez pelo fato de que eu mal estivesse respirando, praticando meu hobby preferido: ficar o maior tempo possível sem ar, sem respirar o mesmo ar que me trazia más lembranças. Um treino para a morte.
Por qualquer roupa e andar de bicicleta pela madrugada. Era tudo que eu queria. E tudo que não podia. Ver o breu da noite naquele instante seria ótimo, mas abrir a janela faria muito barulho. Bosta. Vasculhei a gaveta do guarda roupa em que estavam minhas roupas de dormir, não tinha nada. Todas lavando. “Durmo sem”, dito em voz alta isso, me apressei em pegar um edredom para me cobrir, tarefa bem sucedida.
Quase recomecei a andar pelo quarto, o sono me dominava, meu cérebro não funcionava e a meia volta que dei não pode me despertar. Dormir seria melhor, o sabor de morte em cada sonho. Assim que me aproximei da cama me lembrei que o colchão estava molhado por causa da água que derrubara uma hora atrás. Dormiria no lado contrário.
Deitei. Parei. Pensei. Chorei. Fechei meus olhos na esperança doce e ingênua de que nunca mais os abriria.
O rapaz de vinte e poucos anos pôs-se a sentar no primeiro banco que viu na praça. Olhou, protegendo as córneas com os óculos escuros sessentistas, para o sol radiante que aquecia seu corpo branco. Nenhuma nuvem no céu típico da região. Notou a fonte histórica, já bem corroída pelo tempo, a sua frente… Meninos de rua brincavam na água enquanto pobres homens mais velhos berravam para assustar os pombos que andavam no chão sujo.
Descontentamento e impaciência eram os únicos sentimentos visíveis no rosto magro e sardento do moço. Vestia-se casualmente bem, camisa azul claro comprada num brechó nobre, bermuda de tecidos elegantes assinada por algum estilista renomado, e o sapato Oxford não deixava escapar seu gosto por tudo que é clássico. Na cabeça, por cima do cabelo castanho curto cortado por ele mesmo, ia um chapéu branco com uma pequena faixa negra. O suor escorria por seu buço, fazendo-o lambê-lo num gesto nada polido.
Na imersão de seus pensamentos infortúnios não percebeu que um jovem senhor havia parado para descansar no mesmo banco que ele permanecia. O primeiro murmurava a letra de um antigo rock britânico quando foi surpreendido pela pergunta do segundo:
– Ei amigo! Quer um cigarro?
O mais novo olhou lentamente para o lado, ainda com as ideias distantes da praça paulista em que se encontrava. Pigarreou algo ininteligível para si próprio e depois de pensar um pouco, respondeu com um seco “não”.
Cinquenta e uns anos deveria ter o homens de barba grisalha e foi perto desse número de vezes que insistiu para que o moço aceitasse seu Lucky Strike.
– Desculpe, prefiro morrer com três tiros na garganta em poucos segundos a fumar e ter de esperar longas décadas de sofrimento para foder com meus pulmões de uma vez e morrer de câncer. – explicou em tom áspero o jovem.
Dobrando a barra da calça, o homem mais velho riu-se roucamente para depois gritar no ouvido daquele que estava a seu lado:
– Há, você não me engana! Olhe só o quê carrega em uma das mãos. – e apontou para a garrafa de whisky que era carregada pelas mãos brancas e grandes do rapaz.
O dono da bebida mostrou os dentes pela primeira vez naquela manhã, não se sabe como num sorriso irônico ou súbito raivoso. “Por que diabos veio este velho me encher à custa da pouca paciência que me resta? Logo hoje que esta encontra-se esgotada”. Abaixou a cabeça e virou-a para os lados, feito isso, levantou-se e já estava alisando a roupa para ir embora e finalmente livrar-se do velho robusto sentado no banco de madeira.
Mal deu dois pequeninos passos e ouviu um “volte aqui, prometo parar de amolar-te com minhas chatices!” atrás de si. Ignorou o quê escutara e continuou seu caminho rumo a fonte central que jorrava água para todos os cantos: sentou-se perto dali.
Sua face fechada sugeria os piores pensamentos – lábios comprimidos com bravura, nariz inflado do que poderia ser ódio e o cenho completamente franzido. Tomou um gole da bebida barata que comprara na noite passada em um barzinho sujo da próxima esquina. Noite fria. Por dentro e por fora.
Tirou do bolso uma carteira e desta arrancou violentamente a foto de uma mulher, pouco bonita ela, e a fitou com um olhar de horror misturado com tristeza nunca antes visto.
Despiu-se dos óculos para secar com os dedos longos e tortos a lágrima que brotava de seus olhos inchados. Sua boca, embora ainda cerrada, tremia para que seus soluços não fossem perceptíveis para outras pessoas, mas logo desistiu de reprimi-los. Seu silêncio deu lugar ao som da fraqueza de uma alma doente. Desesperado, amassou a foto em seu punho bruscamente fechado.
“Pessoas são tão inúteis, pena tenho de mim por ser dessa raça tão medíocre” conversou consigo mesmo para depois tomar todo o líquido forte que restava na garrafa pesada de vidro. Levou a manga da camisa até os lábios para que estes fossem secos. Seu coração estava incrivelmente mais amargo do que sua boca molhada pelo whisky vagal.
Observou por um único instante tudo a sua volta: uma família feliz tomando o sol das oito, crianças, “esses pivetes barulhentos”, brincando e idosos rindo a toa enquanto jogavam barulho. Em comum entre todos eles… O espaço, nada de vazio em suas mentes e no sangue que corria em suas veias, espaço. “Coisa que nunca terei no vácuo negro que sempre fora essa desgraçada vida”.
Tornou a observar a foto 3x4 amassada na palma de sua mão: mulher séria, branca, fundo esverdeado e obscuro. Água. Água descendo dos minúsculos olhos do garoto quase homem, seu arrependimento molhando seu bonito e delicado rosto tomado pela frieza. Jogou a foto entre os vãos do banco da praça. Sua cabeça girava. Suas ideias giravam. O mundo girava e ele permanecia o mesmo.
Colocou os óculos, encaixou-os bem ao nariz fino e arrebitado. Memorizou cada nuvem do céu pela última vez de todas e levantou-se com uma pressa angustiante. Com uma mão largou a garrafa de álcool no chão e com a outra apalpou o quê tinha por debaixo da camisa: um revólver e mais três balas.
Saiu caminhando rumo ao nada.
Alguém, por favor, alguém pode me dizer quanto falta para a hora de despertar? Algum generoso pode me informar quando tocará meu despertador? Só pretendo calcular o quanto ainda posso aproveitar desse sonho, do qual ficaria eternamente de olhos fechados, vendo a imagem dela… Dê-me, alguma boa alma, sossego para deste lugar nunca sair.
Talvez eu esteja num filme, apenas desejando que seu diretor nunca dê a cena final. E porque não estaria eu num livro empoeirado, esquecido numa biblioteca qualquer? Aguardo para que o leitor me veja em suas páginas, mas que jamais passe os olhos pelo “FIM!” escrito em tinta negra da última folha.
Eu a quero tanto do meu lado, nos meus braços, colada aos meus lábios, os olhos claros fitando os meus… Minha cabeça já não pensa e meus pés já não andam, não tocam o chão, flutuam. Perguntam-me o que vejo de tão belo, o que há de tão bonito em minha ótica, para eu estar sorrindo distraidamente.
Só quero encontrá-la, dar vergonhosamente minha mão para ela, por mais que essa possa estar tremendo de nervosismo, e não soltar nunca mais. Quero sentir a temperatura de seu corpo branco e seu hálito quente em meu rosto.
Seu perfume… Preciso saber qual é, para querer o sentir a cada vez que respiro. Sua voz me é paradoxalmente tão próxima e tão distante, mas isso não basta: preciso ouvi-la perto do meu ouvido, ela dizendo tudo o que quero escutar.
Um dia, espero que não muito longe, eu serei dela e vice-versa. Quero meu nome gravado em seu coração, assim como o dela está no meu. Posso ser o Malboro que a acalma, os calmantes que a fazem dormir, a cura para sua doença.
Ela diz gostar de mim e eu acredito, se faço certo enquanto a isso não o sei. Diz querer estar perto de mim, mas seria impossível ela desejar isso mais do que eu desejo estar perto dela. Derreto-me feito uma geleira exposta aos mais fortes raios de sol, meu riso é cada vez mais incontido, meu coração (antes tão frio e só), descongelou.
Estou deitada na minha cama, com um copo d’água no criado mudo ao lado, sonho acordada dentro do sonho: ela me levaria pra andar de ônibus e eu dormiria tranquilamente em seu ombro durante todo o trajeto, ela mal se mexendo para que eu não acordasse. Em alguma tarde de outono, deitaria, sorrindo, no meu colo enquanto eu passaria carinhosamente meus dedos entre seus cabelos loiros. Em alguma madrugada afora dançaríamos nossas músicas tão juntas que quase não haveria ar para respirar, depois apenas nos deitaríamos no sofá da sala e conversaríamos sobre coisas bobas até o sono chegar. Ela me deixaria chorar de saudades ao ouvir a música do Wolfmother que leva seu nome.
Me faz lembrar de dias chuvosos, o frio batendo na porta: do lado de dentro um cobertor e duas xícaras de café. Me faz lembrar também, embora muito tristemente, que talvez ela só habite meu imaginário, uma imagem criada por ventos.
Mas afinal, que horas da madrugada são?
Calos grotescos nos nós dos dedos,
Palma da mão preta de grafite,
Uma cabeça cansada de pensar,
Por trás dos escritos que revelam medos.
Um pouco de capuccino basta para me acalmar,
Ao seu lado um velho caderno aberto,
Logo na folha o lápis começa a trabalhar,
Sentimentos no branco, agora eternos.
Coisas que só um papel pode ouvir,
Da ponta de um lápis que tudo quer contar,
Desde as dores de seus pecados,
Até a vontade de amar.
No sofá me sento para as palavras tentar rimar,
Tiro uma frase, corto outra,
Nas linhas azuis desejo fugir,
Mas por elas só posso andar
Muito tranquilamente transformando em estrofe,
Cada palavra perdida nas tristezas de um mar.
Poder criar,
Reinventar,
Poder até arruinar se quiser, não?
Até as maiores vontades de um reprimido coração,
Entre as linhas deste caderno,
Que pelos pensamentos por vezes inúteis,
Me levam a imensidão.
Acordo mas ainda estou presa ao sonho da minha realidade. Abro os olhos com medo do que verei, isso se o verei; imagens turvas e fora de ordem, móveis conhecidos, porém, todos embaralhados na minha visão.
Faço uma tentativa fracassada de movimentar meu corpo deitado no sofá da sala mais afastada da casa, esse parece pesar 150 quilos e não sai do lugar. Dou-me conta do que está acontecendo… Meu pavor da tarde chegara e junto com ele a falta de ar e sentimento de pré-potência diante da situação.
Vivendo um pesadelo que poderia me tomar a vida, a sequência de vários outros cochilos vespertinos: morte! Pensamentos abandonavam bruscamente meu cérebro, assim como a lógica que ele já tivera algum dia. Pálpebras se fechando involuntariamente, lábios cerrados por uma força além de mim, mãos estranhamente estáticas. O cabo de conexão com o mundo estava sendo cortado lenta e dolorosamente pelas mãos do desespero que me consumia a cada infernal segundo sem que o ar chegasse a meus pulmões.
Pânico, porque tomares pose de mim? Dor, para que me assombrar de tal forma? Suava frio por baixo da mata azul marinho que me cobria, onde o velho e confortável sofá desbotado me serviria de leito de morte. O vento daquele tedioso e aflito domingo a tarde entrava na sala pela porta encostada. A porta. Precisava fugir por ela, mas como? Fazia um esforço sobrenatural apenas para chegar a essa conclusão, quiçá poderia eu reunir forças para dar cinco passos a minha direita e conseguir alguma ajuda, por mais banal que fosse, para não morrer durante aquele pesadelo.
Meus pés formigavam, sentia minhas veias dos braços saltadas e com o sangue passando vagarosamente nelas. Relatos de um defunto.
“Preciso montar uma estratégia para me mexer, uma câmera Polaroid, um morcego!” comecei a devanear e a pouca noção que me restava foi-se embora frente a essas alucinações. Um clipe do Oasis, retrato de uma mulher loira, um banjo, garrafa de Jack Daniels – efeitos de alguma droga moderna que eu não tinha injetado em meu corpo.
Ouvia desta vez sem loucuras, alguma música vinda do clube mais próximo, onde acontecia festa de Carnaval. A letra do pagode dizia “… forças pra continuar” e isso bastou para que eu recuperasse minha sanidade e começasse a ter pensamentos lúcidos e com nexo, por menor que fossem.
“Meus olhos, preciso abri-los” pensei fazendo uma força capaz de levantar um bêbado robusto do chão para que eu conseguisse descolar minhas pálpebras. Lampejo de felicidade. A luz invadindo tudo. Meus olhos abertos. Todo o esforço valera.
Minha alegria a esse feito foi tão forte que esqueci de preocupar-me em sustentar a firmeza para que meus olhos não voltassem a se cerrar. Escuridão. Adeus claridade, adeus visão.
Se estivesse em estado de socar algo, o faria imediatamente por raiva. Agora minha respiração estava ofegante e eu tentava desesperadamente me jogar do sofá, “quem sabe alguém ouve o estrondo e vem me socorrer?”. Fracasso. Tentei outra vez e tantas outras que seriam impossíveis de contar nos dedos das mãos e dos pés.
Até que com a mesma bravura que um raio corta o céu, tudo voltou com uma imensa e barulhenta luz: sai do lugar e estava sentada de forma torta sob o braço rasgado do sofá. Minha pulsação voltara freneticamente, assim como o sangue correndo nas veias. A dor foi-se embora e levou consigo o formigamento e mal estar.
Puis-me de pé com velocidade e tropeçando no cobertor, custava a acreditar nos fatos anteriores. Minutos de desespero que se alojaram nos meus pensamentos confusos.
Eu gosto de: unicórnios, cogumelos, chá, capuccino, cheiro de cigarro no ar, amanhecer, céu nublado, grama, frio, inverno, chuva, meninas, meninos ruivos, anos 60, rock britânico, The Beatles, vintage, fotografia, Polaroid, discos de vinil, estilo alternativo, indie, camisa xadrez, All Star detonado, silêncio, mistério, literatura, Edgar Allan Poe, sotaque gaúcho, narizes grandes, mãos dadas e consequentemente suadas, pintas miúdas na face, borrão de maquiagem, sorrisos tímidos, lábios vermelhos, serrinha nos dentes, pele quente, arrepios, medos, mordidas, abraços, gelo que queima, fogo que arde, roer unhas, cheirar livros, sonhar acordada, flores murchas, chocolate, Starbucks, Häagen-Dazs, clássicos da Disney, A Single Man, ler, escrever, poesia, inventar, reinventar, imaginar, cheiro de banho, lembranças de infância, perfumes femininos, universo, noites de fortes ventos, cheiro de novo, esquecer do mundo, picar papéis milimetricamente, dedos sujos de grafite, nostalgia, solidão, sangue, lágrimas, escuro, claridade, jornalismo, Geografia, Filosofia, História, capitalismo, Segunda Guerra Mundial, política, Europa, Inglaterra, arte, Van Gogh, arquitetura gótica, Renascimento, realismo, caligrafia, decoração, alianças, esmeraldas, máscaras, vermelho, preto, morte, rebeldia, palavrões, perigo, quebrar regras, amor, ódio, cicatrizes, coração batendo descompassado, vento soprando, meu rosto corando, mar gelado, coca sem gás com miojo frio… e dela.
Esqueça que estamos caindo profundamente,
Esqueça tuas palavras entre dentes,
Apenas finja que não quer se libertar de suas máscaras,
Que não liga para o que fala a sociedade mal amada.
Teu corpo não aguenta mais, Eu vejo, Saber de tudo que o mundo é capaz, São todas frases jogadas ao vento.
Sempre olhando para os lados, Já sabendo sobre o que todos eles falam, Verdades, Nossas verdades,
Mentiras expostas a maldades.
Eu ouço risos insanos,
Vem de cima, cada vez mais alto,
Humanos pecando seus atos,
Oremos com sorrisos nos lábios.
Disfarcemos nossa dor,
Disfarcemos nosso desespero,
Disfarcemos nosso rancor,
Eles não sabem o que falam,
Não conhecem o amor.
- Pi pi pi, pi pi pi…
Dei um tapa em meu despertador para que conseguisse me levantar sem seu barulho martelar minha cabeça. Sentei-me com as pernas cruzadas na cama e enquanto me espreguiçava tive relances de cenas lindas e românticas (talvez sonhos) e uma pequena alegria formigou meu corpo.
Fiquei alguns minutos de olhos fechados deixando que minha mente me guiasse, fazendo com que as lembranças tomassem conta de mim. Num ato súbito de nervoso abri meus olhos, acabara de perceber que não sabia ter vivido ou sonhado tudo aquilo. As sensações eram reais, disso estava certa. Mas e o resto? Cada beijo, abraço, carinho, faísca de paixão… Realidade ou ilusão?
Temendo estar louca me levantei e finalmente fui tomar meu banho quente e rápido de todas as manhãs escolares. A fervura da água fez com que seu vapor marcasse meu espelho. Me enxugando e batendo os dentes de frio constatei uma coisa: no vidro estava escrito um nome feminino, como se no dia anterior alguém o tivesse feito, brincando de escrever no vidro. O nome já estava saindo,era…
- Mas o que é isso? Hm… Hm… Aham! – li com dificuldade o nome que aparecera e um sorriso abriu-se involuntariamente em meu rosto e me iluminou o olhar. Era ela a menina das minhas lembranças perfeitas, minha… namorada?
Agora eu sabia de tudo! Era nela em que meus pensamentos estavam concentrados desde a hora que acordara, mãos entrelaçadas e sussurros de “eu te amo”. Sentia seu perfume doce como se estivesse ao meu lado. Os momentos com ela eram perfeitos, um verdadeiro sonho.
“Sonho, é isso. Droga!” briguei comigo mesma. A perfeição era tanta, os diálogos surreais e cada beijo magicamente bem dado… Não era possível que aquilo fosse verdade! Sonhos, eram apenas isso, sonhos com a função de iludir.
Sai sem nenhum pingo de água do banheiro e logo comecei a vestir minhas roupas velhas compradas num brechó paulista. Enquanto abotoava minha camisa xadrez ouvi algo vibrar: era meu celular. Ele me informava que ela acabara de me mandar uma mensagem.
Inseri a senha de acesso e li com as mãos tremendo o “bom dia querida, abra a porta de casa e tenha uma surpresa!”. Devo ter ficado vesga de susto quando li isso, não compreendia como poderia ter acordado a quase meia hora e ainda estar sonhando. O sangue me fugiu a face, estava enlouquecendo.
Confusa e sem saber como agir, terminei de me vestir e fui ver qual surpresa me aguardava do lado de fora. Antes de abrir a pesada porta de madeira que dava pra rua fiquei pensando o que poderia ser: flores, um cartão, chocolates… O quê? Tomei coragem e girei a maçaneta.
Quando vi, na minha frente estava… ela! Mochila rasgada nas costas, roupa básica e All Star detonado. Seu sorriso tomou conta de mim e logo estávamos nos abraçando e trocando carinhos como típicas amantes adolescentes. Minha cabeça girava de uma forma estranha, me fazendo ter náuseas prazerosas e meu estômago (oh, coitado deste!) sofria como nunca antes, mas eu estava adorando aquilo.
Saímos da frente de casa e fomos caminhando tranquilamente na manhã pouco ensolarada rumo à escola, apenas quatro quarteirões dali. Minha mão, apertada na dela, estava suando frio, numa sensação mútua de estranhamento e encantamento. Soltei sua mão e depois de “enxugar” o suor em minha calça, disse:
- Tão perfeito… Sei que estou sonhando, tendo o melhor sonho de todas as noites, mas estou preocupada, com medo de acordar e devanear por não ter-te mais. – olhei fundo em seus olhos verdes enquanto passava delicadamente os dedos entre seus cabelos espetados e curtos, negros como breu.
Ela chegou mais perto (como se ainda fosse possível) e disse sorrindo:
- Todo dia a mesma coisa, você não vai me perder, bobinha. – ela me pegou pela cintura – Não é um sonho, mas não nego que seja a realidade mais pura e linda de todas, se isso for te consolar.
Nos beijamos ali mesmo, no meio de uma rua da qual não me recordo o nome, um beijo tão bom que foi interrompido pelo sorriso de nós duas. NÓS… O “nós” existia, éramos duas, porém uma palavra só, um só sentimento: amor.
Dentro da escola continuamos seguindo a mesma linha, não nos preocupando com o que os outros diziam, aproveitando cada segundo, cada toque seguido de eternos arrepios. A sensação de borboletas no estômago não me abandonava, era uma sensação estranha e comum, ruim e boa, desconfortável e confortabilíssima. Era a dualidade morando dentro de mim, que sofria cada fibra do corpo a cada respiração perto dela.
Acabadas as aulas nos despedimos longamente com abraços e beijos seguidos de frases como “vou sentir sua falta” e “lembre-se de mim”, como se fossemos nos separar para sempre, e doía pensar nisso. Depois daquela hora não a vi mais naquele dia, seguindo a tarde com o peito doendo de tanta saudade. Um minuto já era longe demais dela, era motivo para eu quase não conseguir respirar de tanto amor. Não me concentrava em nada, meu mundo era ela.
O sol da tarde já havia ido embora e quando dei por mim a lua brilhava cheia no céu. Cintilava tanto quanto (ou até menos) os olhos dela, enquanto o céu escuro me lembrava seu cabelo preto feito noite. As estrelas… bem, essas me lembravam a melhor parte da minha amada: o sorriso. Me perdi no tempo observando a maravilha do universo, até que o sono me atingiu e acalmou meu coração, mas não meus pensamentos.
Deitei-me cansada na cama e fechei os olhos, porém não para dormir, apenas para decorar os traços delicados de quem eu tanto amava. Ela não estava comigo, mas eu podia sentir sua pele branca e lisa cada vez mais próxima da minha, na minha imaginação, agora seu corpo magro estava abraçado ao meu. Então deixei o sono me levar.
- Pi pi pi, pi pi pi… – soquei meu despertador e levantei depressa, acendendo a luz, pensando sabe-se lá porque ter perdido a hora.
Me aliviei ao olhar para o relógio e ver que ainda eram seis horas em ponto, foi então que me ocorreu uma avalanche de lembranças perfeitas, que tratei logo de ficar em dúvida se eram maravilhas da vida real ou apenas sonhos bem projetados pelo meu cérebro.
Minha música preferida nunca mais me causou as mesmas sensações. A coca sem gás parou de ser deliciosa. Atenção em outras pessoas se extinguiu. Chuviscos pararam de fazer das minhas tardes maravilhosas. Brigadeiro de colher, nem me lembro da felicidade que me dava. Meus risos se enfraqueceram. Séries antes hilárias perderam a graça. Depois de ti.
Minha respiração queima como brasa. Meu coração parece ter cortado relações com algumas artérias. Minhas colunas parecem agora tão cansadas do peso da dor. Meus olhos sempre tem uma lágrima a derramar, e nem essas são as mesmas: não tem o mesmo gosto. Minha mente se embaraça tal é a minha dificuldade em decodificar os enigmas que me rondam. Depois de ti.
Dor, dor,dor! Porque do lado esquerdo do meu peito reinas? Calor de quarenta graus e o frio ainda mora em mim, gelo que me queima a alma. Talvez eu só precise de um caminho novo, rumo ao… Mas afinal, que rumo estou tomando? Depois de ti.
Você veio e depois se foi. Nada já é como era dantes, depois de ti.