- Pi pi pi, pi pi pi…
Dei um tapa em meu despertador para que conseguisse me levantar sem seu barulho martelar minha cabeça. Sentei-me com as pernas cruzadas na cama e enquanto me espreguiçava tive relances de cenas lindas e românticas (talvez sonhos) e uma pequena alegria formigou meu corpo.
Fiquei alguns minutos de olhos fechados deixando que minha mente me guiasse, fazendo com que as lembranças tomassem conta de mim. Num ato súbito de nervoso abri meus olhos, acabara de perceber que não sabia ter vivido ou sonhado tudo aquilo. As sensações eram reais, disso estava certa. Mas e o resto? Cada beijo, abraço, carinho, faísca de paixão… Realidade ou ilusão?
Temendo estar louca me levantei e finalmente fui tomar meu banho quente e rápido de todas as manhãs escolares. A fervura da água fez com que seu vapor marcasse meu espelho. Me enxugando e batendo os dentes de frio constatei uma coisa: no vidro estava escrito um nome feminino, como se no dia anterior alguém o tivesse feito, brincando de escrever no vidro. O nome já estava saindo,era…
- Mas o que é isso? Hm… Hm… Aham! – li com dificuldade o nome que aparecera e um sorriso abriu-se involuntariamente em meu rosto e me iluminou o olhar. Era ela a menina das minhas lembranças perfeitas, minha… namorada?
Agora eu sabia de tudo! Era nela em que meus pensamentos estavam concentrados desde a hora que acordara, mãos entrelaçadas e sussurros de “eu te amo”. Sentia seu perfume doce como se estivesse ao meu lado. Os momentos com ela eram perfeitos, um verdadeiro sonho.
“Sonho, é isso. Droga!” briguei comigo mesma. A perfeição era tanta, os diálogos surreais e cada beijo magicamente bem dado… Não era possível que aquilo fosse verdade! Sonhos, eram apenas isso, sonhos com a função de iludir.
Sai sem nenhum pingo de água do banheiro e logo comecei a vestir minhas roupas velhas compradas num brechó paulista. Enquanto abotoava minha camisa xadrez ouvi algo vibrar: era meu celular. Ele me informava que ela acabara de me mandar uma mensagem.
Inseri a senha de acesso e li com as mãos tremendo o “bom dia querida, abra a porta de casa e tenha uma surpresa!”. Devo ter ficado vesga de susto quando li isso, não compreendia como poderia ter acordado a quase meia hora e ainda estar sonhando. O sangue me fugiu a face, estava enlouquecendo.
Confusa e sem saber como agir, terminei de me vestir e fui ver qual surpresa me aguardava do lado de fora. Antes de abrir a pesada porta de madeira que dava pra rua fiquei pensando o que poderia ser: flores, um cartão, chocolates… O quê? Tomei coragem e girei a maçaneta.
Quando vi, na minha frente estava… ela! Mochila rasgada nas costas, roupa básica e All Star detonado. Seu sorriso tomou conta de mim e logo estávamos nos abraçando e trocando carinhos como típicas amantes adolescentes. Minha cabeça girava de uma forma estranha, me fazendo ter náuseas prazerosas e meu estômago (oh, coitado deste!) sofria como nunca antes, mas eu estava adorando aquilo.
Saímos da frente de casa e fomos caminhando tranquilamente na manhã pouco ensolarada rumo à escola, apenas quatro quarteirões dali. Minha mão, apertada na dela, estava suando frio, numa sensação mútua de estranhamento e encantamento. Soltei sua mão e depois de “enxugar” o suor em minha calça, disse:
- Tão perfeito… Sei que estou sonhando, tendo o melhor sonho de todas as noites, mas estou preocupada, com medo de acordar e devanear por não ter-te mais. – olhei fundo em seus olhos verdes enquanto passava delicadamente os dedos entre seus cabelos espetados e curtos, negros como breu.
Ela chegou mais perto (como se ainda fosse possível) e disse sorrindo:
- Todo dia a mesma coisa, você não vai me perder, bobinha. – ela me pegou pela cintura – Não é um sonho, mas não nego que seja a realidade mais pura e linda de todas, se isso for te consolar.
Nos beijamos ali mesmo, no meio de uma rua da qual não me recordo o nome, um beijo tão bom que foi interrompido pelo sorriso de nós duas. NÓS… O “nós” existia, éramos duas, porém uma palavra só, um só sentimento: amor.
Dentro da escola continuamos seguindo a mesma linha, não nos preocupando com o que os outros diziam, aproveitando cada segundo, cada toque seguido de eternos arrepios. A sensação de borboletas no estômago não me abandonava, era uma sensação estranha e comum, ruim e boa, desconfortável e confortabilíssima. Era a dualidade morando dentro de mim, que sofria cada fibra do corpo a cada respiração perto dela.
Acabadas as aulas nos despedimos longamente com abraços e beijos seguidos de frases como “vou sentir sua falta” e “lembre-se de mim”, como se fossemos nos separar para sempre, e doía pensar nisso. Depois daquela hora não a vi mais naquele dia, seguindo a tarde com o peito doendo de tanta saudade. Um minuto já era longe demais dela, era motivo para eu quase não conseguir respirar de tanto amor. Não me concentrava em nada, meu mundo era ela.
O sol da tarde já havia ido embora e quando dei por mim a lua brilhava cheia no céu. Cintilava tanto quanto (ou até menos) os olhos dela, enquanto o céu escuro me lembrava seu cabelo preto feito noite. As estrelas… bem, essas me lembravam a melhor parte da minha amada: o sorriso. Me perdi no tempo observando a maravilha do universo, até que o sono me atingiu e acalmou meu coração, mas não meus pensamentos.
Deitei-me cansada na cama e fechei os olhos, porém não para dormir, apenas para decorar os traços delicados de quem eu tanto amava. Ela não estava comigo, mas eu podia sentir sua pele branca e lisa cada vez mais próxima da minha, na minha imaginação, agora seu corpo magro estava abraçado ao meu. Então deixei o sono me levar.
- Pi pi pi, pi pi pi… – soquei meu despertador e levantei depressa, acendendo a luz, pensando sabe-se lá porque ter perdido a hora.
Me aliviei ao olhar para o relógio e ver que ainda eram seis horas em ponto, foi então que me ocorreu uma avalanche de lembranças perfeitas, que tratei logo de ficar em dúvida se eram maravilhas da vida real ou apenas sonhos bem projetados pelo meu cérebro.